PRIMA MATÉRIA
28.03.2026
A Galeria Eduardo Fernandes apresenta Prima Matéria, nova exposição individual de Daisy Xavier, composta por oito pinturas em linho que articulam tinta a óleo, nanquim, ecoline e aquarela.
O título evoca o conceito alquímico de “prima matéria”, a substância primordial, informe e caótica da qual todas as transformações seriam possíveis. Ao mobilizar essa referência, Xavier aproxima pintura e processo alquímico, compreendendo a tela como campo de transmutação simbólica. Não se trata de representar o mundo, mas de instaurar um espaço onde o visível se torna instável.
As obras partem de uma base figurativa que rapidamente se tensiona e se dissolve em camadas sobrepostas, transparências e infiltrações. Linhas quase imperceptíveis atravessam as composições, conectando formas e instaurando relações subterrâneas entre figura e fundo. As fronteiras entre interior e exterior, superfície e profundidade, natural e artificial perdem nitidez.
A escolha do linho estabelece diálogo com a tradição pictórica, enquanto a introdução de nanquim, ecoline e aquarela tensiona essa herança. A superfície torna-se vibrátil, sujeita a fluxos e contaminações, onde controle e acaso coexistem. A pintura emerge como território híbrido, simultaneamente preciso e instável.
Em um contexto marcado pela proliferação de imagens digitais, pela inteligência artificial e pela fragilidade dos regimes de verdade, Prima Matéria propõe uma experiência perceptiva baseada no deslocamento e na ambiguidade. As telas recusam certezas e operam por suspensão. Não há centro fixo nem narrativa linear, há dinâmica de evaporação e condensação.
Verticalizadas e expansivas, as composições parecem exceder os limites físicos do suporte, aspirando a uma condição quase atmosférica. A pintura, aqui, não se encerra na tela, ela se difunde e convoca o espectador a participar de seu processo.
Em Prima Matéria, Daisy Xavier reafirma a pintura como campo de investigação da matéria e do inconsciente. Entre a precisão do gesto e a fluidez do acaso, suas obras instauram um espaço de tensão produtiva, onde a instabilidade não é falha, mas princípio ativo de criação.