PLURALIDADES
Mês Internacional da História da Mulher
Te convidamos a explorar conosco a pluralidade dentro do universo de mulheres artistas que a galeria representa.
Essa análise se faz sim, complexa. Porém, complexidade não pode ser definida como algo complicado. Sistemas complexos são modelos digitais baseados na observação do comportamento de seres vivos e como podemos organizá-los em grupos. Para garantir sua sobrevivência, esses grupos rearranjam-se como unidade mais fortalecida criando estruturas sociais alternativas.
Como apontado por Guerrilla Girls no icônico projeto “Do women still have to be naked to get into the Met. Museum?”, lamentavelmente, a representatividade feminina dentro do universo da arte durante séculos foi mantida como objeto. Em outro projeto mais recente, as ARTivistas perguntam: a arte imita a vida ou o contrário?
Se usarmos como referência nosso grupo de artistas podemos observar que apesar de existirem convergências de pensamentos ou técnicas, cada uma destaca-se a partir da complexidade orgânica de sua produção. Contudo, por meio de suas linguagens artísticas buscam estabelecer seu posicionamento político tanto nos sistemas da arte quanto social.
Revisando textos críticos e de curadoras, com foco especial na visão feminina, percebemos que temas que permeiam o corpo, meio ambiente e a batalha entre consciente e subconsciente destacam-se dentre esse grupo.
Em uma narrativa não linear, em rede, propomos aqui um convite para explorar os diversos universos de: Ana Amélia Genioli, Claudia Melli, Clemencia Echeverri, Daisy Xavier, Luz Lizarazo, Mai-Britt Wolthers, Patricia Rebello e Rosario López.
CLAUDIA MELLI
“A série Fé trata de temas recorrentes em minha trajetória: a dança, e os movimentos cíclicos e circulares da natureza. ”
A dança é praticada desde os tempos mais remotos como forma de conexão entre o humano e a natureza, entre o humano e os mistérios. Além da dança, atitudes como ajoelhar-se, elevar os braços, fechar os olhos, trazer as mãos ao peito são formas corporais de oração que me interessam como imagem e simbolismo.
DAISY XAVIER
Em Anagramas, Daisy Xavier abre mão das molduras, dos cenários ou recursos extra-corpo e nos envolve numa simples e pulsante paisagem de corpos, um denso enfileiramento de peles. São espaços corpóreos que funcionam despidos de suas personas e se tornam volumes sutis, pausas feitas para se adivinhar o sentir dos toques das peles, as texturas dos poros, suas temperaturas. Essas montanhas de carnes, em sua verdade e sua vulnerabilidade plenas— garantia sublime de sua humanidade--se tornam materiais vivos e latejantes, documentos preciosos da memória corporal. Aqui somos incluídos num jogo poético de incompletudes, onde cada peça conta uma história potente, autobiográfica, desnuda, envolvendo quatro geracoes: a avo, a mae (a artista), a filha, a neta.
“quatro mulheres, quatro historias vividas em quatro geracoes, se torna uma grande e unica massa, ocupando compactamente o espaco de uma obra de arte”
MAI-BRITT WOLTHERS
A paisagem, aqui, é tanto o resultado da convivência do olhar nórdico de MW com a exuberância dos trópicos, ao longo dos anos que a artista trocou a Dinamarca pelo Brasil, quanto é a negociação pictóricaentre formas e cores que ela elege para habitarem suas telas.
“A imagem de natureza que está em jogo diz respeito ao que está fora do museu, ao alcance do olhar através das janelas da sala expositiva, mas também ao que está dentro de cada visitante: as memórias ativadas e as sensações evocadas pelo verde, pela luz, pelo breu, pelo silêncio.”
ROSARIO LÓPEZ
Rosario López investiga o espaço conduzindo experimentações estéticas sobre a paisagem por meio da fotografia e da escultura. O movimento contínuo que se percebe em suas instalações escultóricas explora forças invisíveis, como o vento, temperatura e gravidade. Como pesquisadora e curadora se interessa pelo pensamento de filósofos pós-estruturalistas como Jacques Derrida e Gilles Deleuze.
LUZ LIZARAZO
Poemas pelo a pelo
Comencé a trabajar con pestañas postizas en una serie de dibujos sobre celosías, que recuerdan las rejas de protección de las ventanas. Ya había realizado diferentes dibujos en pelo y las pestañas me llegaron como un elemento corporal más fino y lleno de connotaciones. La mirada, el llanto, el sueño, la vigilia.
Elegí las pestañas por dos razones. La primera porque considero que las ventanas de las casas son como los ojos y la segunda, por lo obvio, las pestañas de los ojos y mirar hacia adentro. Poder sencillamente cerrar los ojos y ocultarse en el negro, en el silencio, en mi propio inconsciente.
Luego poco a poco esas pestañas se fueron volviendo escritura y juego. Un juego íntimo y secreto. Con ellas podía dibujar y escribir. Su forma se volvió una pincelada, un trazo, un grafismo; y unir unas a otras se convirtió en un juego de palabras largas o cortas, de acentos, puntos y comas.
Estas escrituras me permitieron además una cierta intimidad, escribir cartas de amor y desamor, recetas imposibles, frases nunca dichas., copiar secretamente frases de otros. Poco a poco como en un laborioso trabajo compulsivo desde el anonimato de mis palabras, fui jugando mi mejor rol de redactora.
Luz A Lizarazo Bogotá, 2014
ANA AMÉLIA GENIOLI
A obra Código Derramado (2016), exemplar de sua poética, captura a fluidez e movimento da água sobre a materialidade do texto do primeiro código de lei, promulgado nos anos 1930, que regula e categoriza os tipos de ocorrência de água no território brasileiro.
CLEMENCIA ECHEVERRI
Duelos (Duelos) é um trabalho de instalação de vídeo de nove imagens em sincronia que, juntamente com três níveis de som, abraçam a sala e evocam um luto interminável que continua a acontecer na Colômbia.
“Em um país onde muitos eventos permanecem inacabados, onde o ar é carregado de esperança, frustração e memória destruída, apresentei o trabalho Duelos (2019) como um momento que cruza fatos e histórias de tempos presentes e passados. De uma ação persistente que, diante do desaparecimento forçado, nos confronta com camadas impenetráveis, pesadas e imensas. ”
PATRICIA REBELLO
O universo poético da artista rompe os limites entre arte e ciência. Utilizando o desenho, a pintura e a criação de objetos, Patricia Rebello inventa espécimes híbridas, originárias de um futuro pós-humano que ecoam seu interesse por biologia, ficção e colecionismo. Sua particular técnica, ao estabelecer vínculo entre um sistema próprio de categorizações e o registro científico, justapõe memórias, fantasias e realidade.
“Nestes trabalhos aqui apresentados, ela foca sua atenção à capacidade de renovação que possui a Natureza e nos apresenta imagens que convidam ao olhar atento e demorado... tempo idêntico ao exigido para a apreensão de seus índices que nos remetem à cautela e ao cuidado que deveríamos empregar para os excessos praticados na atualidade. ”