EDGAR RACY: VEÍCULOS CONSTRUTIVOS
22.03.2025
Edgar Racy
Dizem os psicólogos que tendemos a contar números em nossa língua materna, aquela que nos foi ensinada em casa e na escola em nossos primeiros anos. Estudos também mostram que a língua materna geralmente tem uma vantagem emocional em relação à segunda língua, sendo dominante nessa área. Usar nossa língua materna nos traz uma sensação de pertencimento e comunidade; é a língua da experiência afetiva. Esses dados não impedem que amemos ou multipliquemos nossos mundos em diversas línguas, mas indicam como algo em nós sente em português – brasileiro.
Edgar Racy agora investiga esse estar entre dois mundos, a partir de sua experiência recente como imigrante em terras colonizadoras. O faz pela linguagem construtiva, característica de sua pesquisa visual e ótico-táctil presente em trabalhos anteriores – como em Vista grossa, 2022. No entanto, bem como em trabalhos anteriores, o construtivo não é apenas um exercício de forma e cor, composição e estrutura, mas o veículo de mensagens por meio do qual o artista transforma seus afetos.
Acostumados a entender o mundo por uma dicotomia de pares antitéticos – preto e branco, amor e ódio, vida e morte –, surpreende-nos a forma de contornos perfeitos, o alinhamento regrado, a distribuição de elementos estável reunida ao teor político-afetivo. Nossa impressão inicial é a de uma geometria certeira, resolutiva, sem incertezas. O olhar mais atento revela, no entanto, a materialidade que preenche esses contornos e as palavras que acompanham formas e cores.
Ainda mais de perto, amparados pela reflexão contemplativa que a arte exige e raramente consegue numa vida contemporânea de imagens em scroll infinito, notamos a repetição de três cores e uma variedade controlada de três figuras geométricas, que sofrem recortes e recombinações.
“Glória no passado”, verso do Hino Nacional, centralizada no topo da tela, parece nomear a composição daquilo que resta de um losango e um círculo, que se sobrepõem ao retângulo levemente deslocado à direita. Logo se percebe que as formas são integrantes da Bandeira Nacional, outro símbolo constitutivo da identidade do Estado brasileiro.
Hino e bandeira, no entanto, são representações nacionais distintas, por um lado, porque suas linguagens operam desde lugares diferentes – a língua em verso é poética e aberta imensamente para interpretações; a bandeira apresenta uma visualidade fixa que, em sua composição mais simples, figura um retângulo, um losango e um círculo (o que dizer da inscrição “ordem e progresso sobre a faixa branca ou das constelações de estrelas espalhadas por aquilo que poderia configurar uma esfera, planeta, globo?). Por outro lado, se a geometria parece transparente e absolutamente frontal em sua apresentação, esconde tantos significados quantos foram-lhe associados em tantas culturas e desde que a humanidade passou a desenhar símbolos. Nenhuma linguagem, portanto, é evidente.
Racy articula palavras em verso e figuras geométricas em composições, retirados de símbolos nacionais, como se pudesse reconfigurar as narrativas relativas ao país ao recompor suas partes. A operação construtiva-reconstrutiva é acompanhada por alguns dos princípios da poesia concreta – valorizando a materialidade das palavras, explorando o espaço da folha (neste caso, o espaço pictórico) –, mas não abre mão do eu-lírico, o próprio Racy como enunciador dos versos de um hino composto no início do seculo XX e oficializado apenas em 1922, por ocasião do centenário da Independência.
Curiosa a história de composição desse hino, indicando suas idas e vindas. A versão que conhecemos da letra do hino nacional é a terceira, sendo que as duas primeiras tratavam da abdicação de dom Pedro I, em 1831, e da coroação de dom Pedro II, em 1841. Ambas, portanto, devedoras da monarquia portuguesa, mesmo que conquistada a independência. A terceira chegaria visando garantir valores republicanos que deveriam sepultar as ruínas do passado colonial. No entanto, manter-se-ia a música do hino composta durante o Império, ainda na primeira metade do seculo XIX.
Naquilo que diz respeito ao posicionar e reposicionar os elementos geométricos da bandeira nacional, Racy parece brincar com as figuras, desestabilizando a crença positivista de que o progresso se alcança por meio da ordem social, baseada em princípios como a obediência e a hierarquia. As figuras são realizadas em carvão, tijolos e garrafas de vidro triturados com aglutinante sobre tela ou papel, recuperando de trabalhos anteriores a lógica do reuso de materiais industrializados como metáfora do ciclo da vida.
Vale relembrar que, embora as bandeiras sejam conhecidas desde a Antiguidade, seu uso associado ao símbolo nacional está localizado entre os séculos XVIII e XIX, quando os Estados-nação buscavam transmitir uma visão de união e soberania. Contudo, a identidade nacional hoje revela-se insuficiente para representar as várias identidades com as quais se identifica a diversidade da população brasileira – tendo em vista como identidades únicas levaram a posturas extremistas. No entanto, é curioso pensar que a linguagem geométrica é abstrata e que, sendo assim, não traz em si características descritivas daqueles e daquelas que constituem a população.
Na anterior série “Pátria amada?”, 2018, o jogo com as formas geométricas da bandeira nacional já estava presente; no entanto, o preto do carvão dominava-as, figurando um luto do artista em relação ao país natal. Movido pela decepção diante de uma realidade de violências de todo o tipo, Racy compunha uma “canção do exílio”, como escreveu a crítica Taísa Palhares.
Os trabalhos mais recentes retomam a cor, paulatinamente demonstrando recuperar certa esperança ou, talvez, trazendo uma maturidade diante da compreensão de que a História não é evolutiva rumo ao progresso material ou moral, mas contraditória em suas idas e vindas. O círculo, o retângulo e o losango podem se deslocar em diferentes direções, escapar pelas bordas, perder seus pedaços, mas estão lá, de uma maneira ou de outra, resistindo.
O trabalho de Racy acompanha os debates sobre os símbolos da nação que perpassam a história recente brasileira, sem oferecer uma solução, como é característico da arte, porém indicando, pelo quebra-cabeças de peças desencaixadas, as possibilidades de rearticulação das identidades que compõem o país.
A utopia da tradição construtiva brasileira teve seu declínio nos anos 1960, diante de uma realidade ditatorial incontornável cuja brutalidade negava qualquer possibilidade de racionalidade. A nova figuração dominou o cenário artístico, respondendo à exigência de um posicionamento da arte diante da repressão dos direitos humanos. Entretanto, essa tradição não desapareceu; pelo contrário, manteve-se submersa e silenciosa, até que pudesse ressurgir destacando sua visão de mudança social novamente. Dela, descende Racy e muitas outras e outros artistas contemporâneos que, conhecendo a potência política do construtivo, defendem o princípio da coletividade diante das atuais demandas de um mundo pautado por individualismos.
A atual bandeira brasileira é representativa da República cujos princípios democráticos deveriam reger a vida no país. O sentido do símbolo, por vezes, se perde, sendo subvertido por interpretações oportunistas que visam perturbar o sentido da igualdade, da liberdade e do Estado de direito que se unem à noção de democracia. Racy desmonta e remonta os elementos constitutivos dos símbolos nacionais numa brincadeira que indica como é possível reposicionar esses elementos em composições que mantenham os valores, mas tragam outras perspectivas. O jogo se joga com as mesmas peças, mas suas combinações são infinitas.
Ana Avelar
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